Quem acompanha a Copa do Mundo pode não perceber o nível de preparação e treinamento que a organização daqueles jogos demanda. Os profissionais responsáveis por essa parte do evento são Relações Públicas que trabalham com cerimonial esportivo. Um experiente RP dessa área é Adriano Firmino, entrevistado pela equipe da Agência Experimental de Comunicação Integrada para a reportagem sobre os cursos de especialização do CECC. Ele lecionará a disciplina de cerimonial esportivo no MBA em Gestão da Comunicação, Organização de Eventos e Cerimonial e nos concedeu uma entrevista exclusiva sobre o assunto. Se você é apaixonado por cerimonial ou tem curiosidade sobre a complexidade de megaeventos como a Copa, não deixe de conferir essa entrevista.

Entrevista com Adriano Firmino

Informa: Qual a diferença do cerimonial para eventos esportivos na comparação com os eventos mais ‘tradicionais’?

Firmino: As próprias características e especificidades dos eventos esportivos justificam que lhes sejam dedicados determinados aspectos de protocolo e cerimonial. Na medida em que, num evento esportivo, desde o início do seu planejamento – eu diria mesmo desde que existe uma intenção em organizar, passando pela execução e até à fase pós-evento – começamos a tratar de um conjunto de procedimentos e atividades estritamente ligadas ao cerimonial. Costumo dizer que um evento esportivo é duplamente protocolar porque todo ele tem um componente esportivo e um não-esportivo.

Quando nos referimos ao cerimonial esportivo propriamente dito, falamos dos procedimentos e medidas protocolares inerentes e decorrentes da atividade esportiva, podendo esta ainda ser dividida em componente genérica e componente de competição. A primeira aborda as questões protocolares relacionadas com as cerimônias de recepção das delegações, as de abertura e encerramento, a preparação das salas das reuniões técnicas, a ornamentação dos recintos, as relações com a Comunicação Social e outras que tenham lugar nos recintos esportivos onde vai ter lugar a competição.

O cerimonial de competição é efetivamente o mais importante de todo o cerimonial esportivo, porque além de constituir a parte mais significativa em termos de reflexo de resultado da competição, traduz os momentos altos das consagrações dos atletas, na utilização dos símbolos nacionais, para não referir que são os momentos em que a imagem está no seu auge através das transmissões televisivas e das fotografias. As cerimônias de premiação, que face à sua complexidade, exigem muito planejamento, treino e coordenação na gestão dos preparativos, na utilização e colocação das bandeiras e dos hinos, nos convites às entidades que entregam os prêmios, na escolha do local da cerimônia, na colocação adequada do pódio, na constituição ordenada do cortejo dos participantes dessa cerimônia, no seu trajeto para o pódio, na identificação e concentração dos atletas premiados, na nomeação dos figurantes, nas roupas e postura dos atletas para a premiação, na ordenação das medalhas, etc.

Posso afirmar que o diferencial do cerimonial para eventos esportivos em relação aos eventos chamados de ‘tradicionais’ está principalmente no fato de existir a necessidade de estarmos preparados para que em um evento esportivo tenhamos que, simultaneamente, aplicar os conceitos e técnicas para o componente não-esportivo e para o componente esportivo, caracterizando assim esta matéria num trabalho de duplicidade de atividades protocolares no mesmo evento, podendo ainda afirmar que o cerimonial esportivo, em determinados aspectos organizacionais, é muito exigente na sua execução face à complexidade da estrutura das cerimônias mais significativas, cujos intervenientes e meios utilizados carecem de elevado acompanhamento, coordenação e treino, sendo necessária alguma experiência e acima de tudo, muita concentração. Será importante referir que a aprendizagem dos conceitos e aplicabilidade do Cerimonial Esportivo carece de conhecimentos anteriores de cerimonial geral, na medida em que as especificidades do Cerimonial Esportivo têm muitas bases que assentam em outros conceitos que são precisos ter presente.

Informa: Como o senhor, ao longo de sua carreira, se envolveu com esse tipo de cerimonial? Qual evento poderia citar como o mais desafiante?

Firmino: Comecei estudando protocolo e cerimonial geral, se é que podemos lhe chamar assim, desenvolvi determinados conhecimentos como todos os que se dedicam a essa matéria. O interesse foi de tal modo exponencial, porque esta área é realmente apaixonante, com desafios permanentes e responsabilidades crescentes. Acabei fazendo uma Pós-Graduação em Imagem, Protocolo e Organização de Eventos em Lisboa e, posteriormente, um curso de Cerimonial e Protocolo em Madrid, durante um ano, sendo que no final do curso fiz uma especialização em Protocolo Desportivo. Estas são, entre outras, as minhas principais habilitações. Entretanto, frequento também, em Madrid, um Mestrado em Protocolo, Comunicação e Organização de Eventos. Em Portugal, depois de também ter iniciado a atividade de professor, essencialmente na área do Cerimonial Esportivo, constatei que havia muita coisa para fazer neste âmbito, na medida em que, entre outros aspectos, na maioria dos eventos esportivos não estavam sendo rigorosamente cumpridas as regras protocolares fundamentais. Comecei então a dedicar-me a este estudo e desenvolvi uns apontamentos desta matéria quando lecionei aulas, e que agora estou trabalhando nesses apontamentos para transformar em livro que pretendo editar brevemente.

Como evento mais desafiante eu destacaria o Campeonato da Europa de Futebol – EURO 2004, mas, mais recentemente, tive uma experiência fantástica com a organização do Protocolo Desportivo dos II Jogos da Lusofonia – Lisboa 2009.

Informa: Qual a importância da inclusão da disciplina na grade da pós-graduação?

Firmino: Fundamentalmente, permite colocar o Cerimonial Esportivo ao nível das atividades protocolares inerentes aos grandes eventos, proporcionando entender que os eventos desportivos constituem um dos grandes acontecimentos e atividades que são comuns a uma grande maioria da população, quer seja pela via profissional ou pela via do amadorismo, sendo certo e indiscutível que o esporte é uma das maiores, senão a maior, expressão da atividade multicultural do mundo. Por isso, na organização desses eventos, e à semelhança dos outros, é essencial que existam pessoas que dominem as técnicas protocolares de colocação em prática, e nos moldes corretos, das especificidades do cerimonial inerentes aos desenvolvimentos desportivos. A inclusão na Pós-Graduação é um passo muito importante para reconhecer que o Cerimonial Esportivo constitui uma excelente ferramenta ao nível das outras atividades de cerimonial e que se integra perfeitamente no conjunto das matérias para se ministrar, passando a fazer parte da formação geral e especifica do cerimonialista, numa perspectiva de angariação de conhecimentos que coloquem o Cerimonial Esportivo no patamar que merece.

Informa: Que oportunidades o conhecimento do cerimonial de esporte poderá criar para aqueles que participarão do curso?

Firmino: Dependendo da importância que lhe quiserem atribuir, e até da situação profissional que desenvolvem ou vierem a desenvolver, eu diria que um aluno que frequente esse curso ficará apto a ser o responsável, a curto prazo, por um componente de cerimonial de um evento esportivo, podendo mais tarde, com as experiências que vier a adquirir, estar pronto para assumir a direção de organização de um evento, podendo coordenar as várias tarefas de cerimonial, onde se inclui o esportivo. Outra das oportunidades, e esse é o caminho, assenta na contratação por parte dos clubes, federações e outras entidades e organizações esportivas de técnicos de cerimonial para coordenação das atividades especificas dessas instituições. Também poderá liderar as equipes responsáveis pelo cerimonial de um evento esportivo ou não.